Balraj, poupe o mundo. Eu dizia a ela. Que se fossemos só um talvez o mundo não seria tão seco sobre seus ardis. Que ela andava assim por aquele caminho, com os pés descalças na terra seca, nos ladrilhos cortantes, nos matagais impróprios para descalços. E outrora no caminho, antes de tirar os sapatos e tacá-los ao mar, dizia que a dor não era a que se podia ver. A marca nos pulsos, o grito na garganta. Aquela voz rouca. Ela tinha tudo que se precisava ter para se sentir perto da morte. E quando olhava aquele rosto, assim de lado, tão inerente, sentia o fio de vida que corria por dentro, o fio de sentimento, o fio de toque, que quando as mãos dela se punham sobre as minhas, o mundo era nosso. Onde ela passava, o sinal fechava e o olhos, todos curiosos, paravam para prestar atenção. Balraj então, sem vistas que se entregassem no meio da confusão, seguia no ritmo cego, andando por aquela calçada que agora tinha a cor de seu sangue.

- Quero fugir, um lugar distante, uma voz antiga. Andar por aí e achar aquele horizonte cheio de cores que eu não sei o nome. Descobrir quais são esses instantes exatos em que a humanidade se faz monstruosa. Eu não quero perdão não. Eu quero só sentir até o engasgo na garganta se acostumar que eu nasci foi para isso. E talvez isso me custe a tal felicidade que vocês falam.

- Balraj, não seja tão inocente, poupe o mundo.

- Não poupo nem a mim, nem a mim. Quem dirá o mundo. E se o mundo for eu, e se o mundo for você? E se o mundo for tudo e ninguém?

- Que se você diz assim… eu nunca mais te vejo, Balraj, e eu preciso te ver.

- Ah, precisa não. Que você é esse encontro de águas, Marcit. Você é esse coágulo sangrento que mata. E talvez te fosse melhor arriscar e vir comigo. Mas prefere ficar, prefere te meter no meio desse todo e ser igual ou fingir ser. Você está na inércia ainda. E assim, uma hora, seus pensamentos vão te matar.

E depois deu-me um beijo no queixo, encostou seu corpo ao meu em um abraço e continuou arrastando os calos pelo chão. A falta de mundo nela era de incomodar. E mesmo assim era a pessoa mais humana que eu já havia visto. E até hoje vi. Balraj, nunca mais encontrei em nenhum canto, em nenhum conto, em nenhum desencontro. Mas depois, assim como a maldição daquelas palavras, nunca mais parei de pensar. E onde olho vejo pessoas e não humanos. Vejo policias e não paz. Vejo religião e não amor. Vejo que aqui não é o lugar que me pertence. E que talvez, eu não pertença a lugar nenhum. Balraj dizia que talvez nem se pertencesse. Que os mistérios, os símbolos, os tempos iriam levá-la pelo vento a qualquer lado. E que mesmo assim, continuava sentindo o gosto do que via. E sentia, mesmo com tudo, esperança. E talvez nesses dias eu a entenda. Que em mim também tem esse desprendimento, essa tristeza, essa perda do que nunca foi meu. E parece que nem eu importo mais. Dói mais dentro do que fora. Dói. E a solidão faz-me previamente mais calmo. E infinitamente mais perdido. Balraj era só e mesmo assim sabia como não se jogar de precipícios. Eu ainda caio neles.

(Source: pulsaquasar)

"diário de uma epilética:
oceanos existem entre as estrelas de cada do meu olhar
pisco ventanias
choro terremotos" - moscou, 1821 

(Source: berrlin, via anarquismos)

Saudade, já es de casa

Tua falta, que compõe os meus versos tão sinceros, te leva com o vento que transborda minhas falas, entre saudade já es de casa, sirva-se, conte-me por onde tens andado, quem tens machucado , tua falta me faz lembrar que a saudade existe e assim me pego a pensar que sentir saudade ás vezes é o que há, o que há de bom para te lembrar.

Nordestiana

(Source: nordestiana, via pecadouro)

erro de português

quando o português chegou

debaixo duma bruta chuva
vestiu o índio
que pena! fosse uma manhã de sol
o índio tinha despido
o português

oswald de andrade

(Source: umbrais)

Sobre o delírio:

É me sentir tocada, é deixar que todas essas coisas me entrem, me invadam, me pacifiquem, é permitir que a música me habite, que as palavras me abracem, que a madrugada me encaixe. É não temer a inquietação e não me conter. É chorar e não abrir mão de sentir. De ser devorada. De ser consumida. 

(Source: asasnosolhos, via ocaosdoseio)

mão única

após uns tropeços entre a multidão de trabalhadores perturbados e sonolentos que saiam e entravam na estação de trem, de todos os rostos frívolos que li, o de Marília foi o mais intrigante. seus cabelos alaranjados demarcavam a linha da mandíbula, os olhos verdes estavam murchos - uma característica dela, nada de quem acorda forçadamente em uma segunda-feira -  as mãos brancas subiam e desciam sobre seus braços magros.

de relance, minhas órbitas oculares apertaram meus olhos e encontrei-me preso àquele corpo pálido, e fui capaz de reparar que ela não era feliz. as cicatrizes nos pulsos provavam, as madeixas despenteadas gritavam como ela era despreocupada em ser notada por qualquer idolatra de costumes clichês. sua visão não estava voltada para alguém dentro daquela estação - mesmo alguns sendo escandalosamente chamativos -  ela estava no mundo, mas o mundo não estava nela; até que por meio segundo, sem rumo, perambulando cansado naquela garota, ela reparou em mim, mas não desviou os olhos quando percebeu que eu a folhava como um livro vazio, apenas acenou sem esboço de sorriso, tomou o casaco dos ombros enquanto o trem parava, suspirou estufando o peito, em sua mente talvez pensasse como eu ‘mais um dia na selva de pedra’, e, quando pisou para ser engolida por aquele emaranhado de braços, seu pingente dourada caiu de seu pescoço, e a porta se fechou. corri guiado pelo reflexo do sol, abaixai e peguei ‘Marília’ nas mãos, ergui o colar em sua direção e ela, encostada na porta, de frente para o vidro, observando minha correria, sorriu. Agora, Marília estava em minhas mãos, mas não comigo. Marília havia me colocado no mar, me fazendo nadar, e nadar, e nadar; em instantes o trem encontrava o horizonte e eu ficava nessa ilha de interrogações, em que me deixou a desconhecida Marília. 

O mundo nos cospe.

(Source: omundonoscospe)

"Sexo verbal não faz meu estilo, palavras são erros e os erros são seus. Não quero lembrar que eu erro também. Um dia pretendo tentar descobrir, porque é mais forte quem sabe mentir. Não quero lembrar que eu minto também. Eu sei. Feche a porta do seu quarto porque se toca o telefone pode ser alguém com quem você quer falar por horas e horas e horas… A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você. Mas não, não vá agora, quero honras e promessas; lembranças e estórias. Somos pássaro novo longe do ninho… Eu sei." - Renato Russo. 

(Source: s-i-m-p-l-i-f-i-c-a-r, via florezia)

Anotação de 03 de abril

Contar até três e correr na direção da luz. Perder o ônibus, parar no lugar errado longe de casa e ver um poste de rua aceso ao meio dia. Todas as crianças guardaram seus doces debaixo do travesseiro porque alguém lhes disse que poderiam ser comidos em sonho. Não podem. Às vezes eles mentem pra gente por não saber o que dizer, ou por não saber a verdade, ou por medo de que a gente descubra um jeito de ser feliz. Todos os passos são desencontrados e eu tropeço mesmo dentro de casa. Meu quarto atravancado, sempre bagunçado, meus cabelos bagunçados, minha constante cara de sono. Eu abro as janelas e não resolve, eu abro o livro e não resolve, não tem respostas disponíveis. Parece um tempão mas não passou nem um mês. O barulho de chaves ainda me assusta, mas nunca é alguém chegando em casa. É chegando na casa do lado, na casa da frente, os vizinhos brigando, a chuva batendo no telhado de alumínio, a falta de sono no meio da noite e o cansaço pelo resto do dia. Ninguém pode curar esse silêncio, ninguém pode ouvir essa música e dizer a coisa certa como você diria, ninguém pode entrar aqui e violar a capa dos meus DVDs porque são nossos filmes, nossos. Eu aprendi a assobiar. Cortei a franja, derrubei tinta nos cantos da sala porque na falta do que fazer eu resolvi pintar paredes. Eu fumando no apartamento novo e o mundo inteiro lá fora indiferente ao que passa aqui. Porque não é relevante, ninguém se importa. Só eu sento na janela e fico imaginando para onde os carros estão indo, se estão atrasados, se estão com medo de assalto, se esqueceram de carregar o celular ou de dar comida para o cachorro. 

Sofrer por amor é ridículo.

Não ter amor pra sofrer e continuar morrendo por estranhos sem nome é mais ridículo ainda.

(Source: flor--de--papel)

Põe a mão em mim que eu viro água

Você dançou nos meus olhos, hadassa.

Eu te tiro pra rodopiar entre espinhos enquanto a música toca um jazz e os vizinhos nos olham atordoados. A física das suas mãos que enternecem os movimentos, tão rebuscados, feito solidão em véspera de feriado, o afeto encobrindo nosso silêncio e o vazio pedindo para voltar.

fica aqui, bambeia.

toca meu toque, remexe o sentido que eu sou teu.

e viro água…

eu viro água.

(Source: floresinexatas)